Monday, May 25, 2009

Capitães do Morro - Parte II

Seguindo essa linha de raciocínio, permito-me acrescentar um dado quanto ao meu assaltante. Quando me dirigiu a palavra pela primeira vez, clamava ele ajuda para tomar um ônibus, sendo recusada por mim, numa atitude reflexa e um pouco desconfiada do que poderia acontecer em seguida – e de fato aconteceu. O que digo, leitor, é que essa criança fez uso das táticas de Sem-Pernas, personagem de Jorge Amado que, utilizando o defeito físico como álibi, aproveitava-se da boa fé das pessoas, roubando-as. Meu gatuno do domingo de manhã quis provocar em mim compaixão e levar meu celular. Seria ele uma criança? Um homem? Um aprendiz? Estaria ele movido a instintos de sobrevivência?
   O fato é que a semelhança atrai as pessoas, de modo que um menor desalinhado nunca está sozinho. Quatro ou cinco indivíduos unem-se e formam grupos, que se expandem, criam regras, objetivos, propósitos. Comandos paralelos são criados, desafiando a comunidade e a cidade, recebendo respaldo da polícia corrupta (“Tropa de Elite”) e de políticos interesseiros (já é de conhecimento de todos que muitas favelas do Rio de Janeiro são controladas e mantidas por políticos oportunistas – traficantes e terroristas de terno, gravata e ensino superior).
   Em meio a esse traçado da evolução do comportamento da criança abandonada e de suas conseqüências para a geografia local evidenciam-se três agentes em potencial a fim de quebrar esse paradigma fortemente enraizado na sociedade brasileira. São eles: a família, com seu poder transformador e rosa-dos-ventos dos pequenos; o Estado, com a inclusão social, a geração de empregos, a educação de qualidade, além do reforço da polícia como instituição forte em potencial a serviço da segurança, o enfraquecimento das milícias e o julgamento efetivo de tiranos disfarçados de “homens bons” (Período Colonial); e a sociedade como um todo, com ONGs e ajuda comunitária, em que não simplesmente lamentamos a pobreza, fechamos nossos vidros nos faróis e dirigimo-nos ao melhor restaurante da cidade, mas sim aquela em que contribuímos, de alguma forma, para transformar o local em que vivemos.

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